12/20/2005

Farpas


crónicas radiofónicas para a Rádio Presidenciais On-Line (MCR), BestRock, CidadeFM e RCP - entre 13 e 21 de Dezembro

(nota: a imagem de Joana Amaral Dias é só para animar)

Hoje, em rigoroso exclusivo – como se fosse possível haver exclusivos de outro tipo… - o poema inédito de Manuel Alegre sobre esta campanha para Belém:

Ai, que tu até tens a Kátia Guerreiro
Tu, que até já foste o nosso Primeiro
Mas que Fado é este, que sorte macaca!
Ter de levar outra vez com o Cavaco e sua Maria Cavaca?!

Eu sou de esquerda e tu também
Lutámos contra o fascismo (confortavelmente instalados noutros lugares)
Porque é que agora me tratas com tal desdém
Ou meu grande piiiiiiiii filho da piiiiiiiii seu piiiiiiiii do piiiiiiii, Mário Soares?

Tens nome de índio, aquele que os pára-quedistas gritam
Mas és tão bonacheirão como o meu avô burguês
És o Cunhal possível para os comunas que ainda acreditam
És Jerónimo de Sousa para o comum português

Fumo uma broca contigo ou não tivesse o Pacman do meu lado
Mas não me esperes ao teu lado numa sala de chuto amanhã
Porque ser de esquerda não é achar que um homem deve ter namorado
Por isso ganha juízo e arranja uma gravata, ó Chico Louçã

Há sempre alguém que resiste, Há alguém que diz não
Há sempre alguém com mais jeito do que eu para a asneira
Há sempre um candidato anão
Há sempre um Garcia Pereira.

Eduardo Prado Coelho escrevia ontem, no Público: “Todo o espectáculo teve aquele doce tom kitsch que eu tanto aprecio – dentro daquilo que Barthes sagazmente designou como “la fascination de la bêtise”. Pois, eu sei que parece que Prado Coelho está a falar da campanha a Belém ou pelo menos dos debates, mas não: o texto é sobre o Natal dos Hospitais. Roland Barthes citado a propósito de Ágata e Emanuel? Dêem umas férias ao homem… E a que "bêtise" se refere? À futura primeira-dama?

Entretanto, um professor universitário e palerma – passe a possível redundância – está a fazer greve de fome em Braga porque os media não ligam nenhuma à sua pré-candidatura à Presidência da República. Como é que eu sei disto? Porque os media deram atenção ao pré-candidato palerma desde que ele anunciou a greve de fome.

Contudo, há aqui um lado positivo a explorar: talvez a ideia da greve de fome se pudesse estender a todos os candidatos. Em vez de debater mornos, um emocionante reality-show: toda a gente em greve de fome. No fim, o que sobrevivesse, era o Presidente da República. Evitava-se a abstenção e reduzia-se o tempo de campanha.

Manuel Alegre acha que “a palavra certa de um PR pode ajudar a mudar a vida”. Claro que sim. Sobretudo se a palavra for “mata-te!” – que é o que me apetece dizer de cada vez que vejo Alegre falar.

Jerónimo de Sousa pediu aos transmontanos que se lembrem de São Jerónimo no dia 22 de Janeiro, e não apenas quando troveja ou as dificuldades aumentam: um comunista a invocar um Santo? Depois desta, só me falta ver Soares a chegar a Fátima de joelhos – em troca de sondagens favoráveis.

Soares acha que a eleição de Cavaco é de “alto risco” para o país. Cavaco não responde. Depois há quem se admire que eu faça demasiadas piadas com Soares: nomeadamente as pessoas que ouvem esta crónica – os meus pais e o vizinho da frente, que não tem TV. Como é que eu hei-de brincar com Cavaco se o homem tem a inteligência de estar calado? É o que na gíria política se chama de "dar uma de Sócrates".

O que pensarão os candidatos a Belém da época festiva que estamos a viver? Mário Soares escreveu uma cartinha ao Pai Natal – a pedir uma Marinha Grande. Infelizmente, São Nicolau acha que Soares não foi um bom menino (há um ano, prometeu que não se metia mais na política; agora, é o que se sabe) e deu-lhe apenas um Barcelos de presente.

Manuel Alegre não escreveu ao Pai Natal. O seu ego é tão grande que, das duas uma: ou pensa que é o Pai Natal ou, para não desistir, ainda acredita no Pai Natal.

Cavaco Silva não escreveu uma carta para a Lapónia mas mandou um relatório de auditoria. Cavaco acha bem que o Pai Natal explore os duendes como mão-de-obra barata e eficaz mas está convencido que o Pai Natal precisa de melhores meios de transporte e entrega para conseguir obter reais lucros. Já agora, ajudava se não oferecesse as prendas e cobrasse qualquer coisinha…

Jerónimo de Sousa, obviamente, não acredita no Pai Natal. Acha que é uma invenção do capitalismo selvagem destinada a distrair e empobrecer as classes trabalhadoras. Para a Lapónia, enviou apenas um veemente pedido para que São Nicolau abandone o vermelho como cor oficial.

Louçã acredita no Natal mas tem várias críticas: os duendes mereciam mais protagonismo e uma sala de chuto para os que se agarraram à droga. Na Lapónia, a mulher é ostracizada – alguém viu alguma vez a Mãe Natal? – e, além disso, a homossexualidade é reprimida. O Rodolfo, a rena do nariz vermelho (obviamente gay) tem até uma canção que o ridiculariza. Está mal.

Já Garcia Pereira… bem… acredita no Natal. Aliás, estou convencido que é um dos duendes.

Jorge Sampaio lançou um livro sobre os seus mandatos como Presidente. Infelizmente, e por estar de saída, o livro do actual PR foi lançado tão à pressa que ainda não está disponível no mercado uma tradução para português.

Uma das questões pessoais no debate entre Soares e Alegre era a discussão sobre qual deles é, afinal, o candidato de Sócrates. Penso que, para o primeiro¬ ministro, não há um candidato presidencial preferido. Antes gosta de todos. Porque quanto mais se falar deles, menos se fala de si.

Soares prometera Domingo nunca mais falar em Cavaco mas, até mesmo no debate com o antigo amigo, disse mais vezes o nome de Cavaco do que o de Alegre. Aliás, quando lhe perguntaram como tinha preparado o debate, Soares respondeu: “Cavaco”; o que tinha achado do mesmo: “Cavaco”; quem vai ganhar as eleições: “Cavaco… Hã, não… Eu!”

Luís Delgado, na sua coluna do DN, avalia os debates presidenciais como se fossem jogos de futebol. Para ele, o resultado no duelo Cavaco¬ Jerónimo foi de 4¬ 2, para o primeiro. Já não se via um comentador tão faccioso desde que José Mourinho comentava os jogos da selecção nacional. Contra Scolari, claro.

No debate com Alegre, Soares disse que não tem a certeza que os direitos humanos estejam a ser cumpridos no Afeganistão. Notícia de última hora, no Afeganistão dizem que não têm a certeza sobre o que é que os candidatos presidenciais portugueses têm a ver com isso.

Cavaco jantou na antiga FIL com 1000 mulheres. Confirma¬se assim o distanciamento entre o professor e Santana Lopes, que veio já acusar o antigo líder do seu partido de plágio descarado: “1000 mulheres? Então e eu, não janto?”

Segundo notícia do DN de ontem, Jorge Sampaio lançou um livro com a radiografia do seu mandato. Espero que os actuais candidatos a Belém não tenham a mesma ideia. Ou as radiografias ainda revelavam que pelo menos metade deles estão mortos.

Sim, os candidatos presidenciais são tão velhos que Belém está cada vez mais parecido com o Campeonato Japonês de Futebol – onde reformados em fim de carreira podem assinar um último contrato e ainda amealhar uns cobres.

Por falar em 3ª idade, o debate de ontem entre Soares e Alegre foi moderado por Constança Cunha e Sá e Miguel Sousa Tavares. Parecia um anúncio às Pastilhas Bimil no qual Soares era o único que já tinha aviado a receita. Os outros 3, com aquelas vozes tão roucas, davam um excelente coro para um disco do Toto Cutugno.

Jerónimo de Sousa disse que o “Olhe que não” – que Cavaco lhe dirigiu no debate entre ambos, foi uma cópia mal feita de Álvaro Cunhal. Diz o roto ao nu… E o próprio Jerónimo é o quê?!

As câmaras de televisão apanharam Cavaco a suspirar logo após cumprimentar Jerónimo no fim. (suspiro) Imaginem o que o homem faria se a Joana Amaral Dias fosse a sua mandataria da juventude.

Consta que, na Alemanha, os telejornais só duram um quarto de hora e só se fala de eleições quando as campanhas eleitorais – efectivamente – começam. E esta, hein? Eu, que antes tinha medo dos alemães, agora até penso naturalizar-me.

Entretanto, celebram-se 50 anos da morte de Egas Moniz. Nos EUA, corre uma campanha para retirar o Nobel ao homem que inventou a lobotomia. É natural que os norte-americanos estejam irritados com a técnica que o português inventou. Basta ver os efeitos que teve no seu actual Presidente. Esperemos que, em Portugal, nenhum dos actuais candidatos tenha sido submetida à mesma – embora haja um par de casos que me faz duvidar.

Mário Soares disse anteontem que o homem que o agrediu em Barcelos é “um atrasado mental”. Ontem já veio admitir a hipótese de o accionar judicialmente. Amanhã, é capaz de ser processado pela CERCI.

Jerónimo de Sousa e Cavaco Silva encontraram-se ontem em debate. Um comunista e um economista. Um operário e um professor. Um que não sabe dançar e outro que não sabe comer. Depois não digam que a democracia portuguesa não oferece opções diversas.

Manuel Monteiro acha que o novo aeroporto da OTA é uma megalomania. Sócrates deverá responder: “Não. Megalomania é botar faladura em nome de um partido tão pequeno que ninguém conhece alguém que alguma vez tenha votado nele. Por isso, ‘tá caladinho ou então junta 7500 assinaturas e vai juntar-te ao Garcia Pereira à porta dos estúdios de TV. Ok?".

A terminar, noto apenas que o Benfica continua em grande. Sim, eu sei que não tem nada a ver com as eleições presidenciais mas é por isso mesmo que falo no assunto: distrai um bocado e sempre anima alguns milhões de nós.

Já é mais do que sabido. Mário Soares foi agredido em Barcelos. E está chateado. Soares foi rapidamente afastado da cena do conflito, mas pretendia ficar mais um pouco. Afinal, passaram 20 anos sobre os incidentes da Marinha Grande e, se as câmaras filmassem sangue, talvez a sorte do candidato socialista mudasse. Para isso, seriam necessários mais 4 socos e 3 biqueiros na fuça. Pelo sim pelo não, Cavaco já encomendou duas peras em Alfornelos e 5 pontapés em Santa Comba Dão.

Manuel Alegre, o segundo a entregar as assinaturas ao TC – depois de Jerónimo -, diz que as suas são melhores que as do líder comunista. Claro que sim. É preciso não esquecer que Jerónimo é operário e Alegre poeta. Os poetas estão muito mais habituados a escrever pelo que não duvido que as assinaturas de Alegre devem ser melhores. Pelo menos no campo da caligrafia.

Francisco Louçã afirmou que, se fosse PR, demitiria Alberto João Jardim. Como sabe que nunca ganhará as eleições, o líder do Bloco aproveitou ainda para garantir que, se for eleito PR, colocará o primeiro astronauta português na lua e voará, ele próprio, até ao satélite da Terra, onde fará com que o nosso planeta gire ao contrário sobre o seu eixo.

A terminar, Louçã e Alegre estiveram ontem frente-a-frente perante as câmaras de TV. Para ser um típico jantar da esquerda chique, só faltou servirem o caviar.

LFB